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Os melhoramentos da nação e a documentação fotográfica das obras públicas no Brasil Maria Inez Turazzi
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional / Museu Imperial

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As fotografias de obras e projetos de engenharia do século XIX são um tipo singular de documentação fotográfica, sobre as quais podemos lançar algumas questões relacionadas aos processos constitutivos da afirmação de uma "identidade nacional". No caso brasileiro, as imagens de pontes, estradas e outras construções da época integraram não apenas o processo de criação de uma memória da atividade profissional dos engenheiros encarregados das obras públicas do Império, como também o projeto de construção da nação pelo Estado monárquico, projeto esse orientado por uma visão do progresso como lei geral da história.

Esse gênero de fotografia despertou meu interesse no início da década de 1980, quando comecei a lidar com arquivos de engenheiros que haviam atuado no Rio de Janeiro entre a segunda metade do século XIX e os primeiros anos do século XX, como o ex-prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), cuja coleção encontra-se no Museu da República. Posteriormente, ao realizar uma pesquisa sobre a história das exposições nacionais e internacionais do século XIX, percebi também que essas imagens ocupavam um lugar privilegiado no recinto das exposições e, por extensão, no espetáculo de "civilização" e "progresso" das nações participantes de tais eventos. Por exemplo, no interior do pavilhão de obras públicas da Exposição Universal de Paris de 1878, além de alguns modelos de pontes e estruturas metálicas, a mostra estava repleta de fotografias e gravuras, como o demostram as imagens nas paredes e os álbuns sobre vitrines que podem ser vistos em uma fotografia da ocasião existente no acervo da Ecole des Ponts et Chaussées.




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Statue of Liberty under construction; Charles de Marville


Nessa mesma época, uma exposição na cidade de Paris, chamada Photo Génie, indicou-me as peculiaridades desse tipo de produção fotográfica -até então pouco pesquisado- e a riqueza do acervo existente nas escolas de engenharia francesas, especialmente na Ecole des Ponts et Chaussées, que reúne mais de 10.000 imagens do século XIX. Faziam parte dessa exposição, por exemplo, fotografias de Pierre Petit (1832-1909) sobre a montagem provisória da Estátua da Liberdade, entre 1876 e 1881, na capital francesa. Vale a pena lembrar aqui que a obra, com 46 metros de altura, havia sido desenhada pelo escultor Fréderic Bartholdi (1834-1904), mas sua concepção estrutural e sua construção estavam a cargo de engenheiros como Gustave Eiffel (1832-1923), formados na melhor tradição do ensino tecnológico da época.

Por outro lado, é importante notar que os arquivos relacionados com as primeiras gerações de engenheiros que se formavam no país reúnem imagens não apenas do Brasil, como também de várias outras partes do globo, tendo em vista que as fotografias de engenharia constituíam uma das formas mais fecundas de intercâmbio profissional e de informação tecnológica do mundo oitocentista. Esse é o caso, por exemplo, das imagens que compõem a obra Les travaux publics de la France, publicada entre 1876 e 1883, com boa parte das fotografias de obras públicas francesas apresentadas na Exposição Universal de Paris de 1878. Os cinco volumes dessa coleção monumental, impressa em fotogravura, integravam o acervo consultado pelos alunos da Escola Politécnica do Rio de Janeiro (criada em 1874), na biblioteca da instituição. Por sinal, estava ali reunido o acervo relacionado à ciência e tecnologia mais expressivo do Brasil no século XIX. Os engenheiros que cursavam a Politécnica também contavam com uma série de vistas e um conjunto de reproduções de gravuras de edifícios importantes - entre eles, o Capitólio, em Washington (EUA) - em seus estudos sobre os "monumentos notáveis" da época, estudos esses que eram ministrados por André Rebouças (1838-1898), professor do curso de "arquitetura civil, resistência dos materiais e tecnologia das profissões elementares" da Escola e um dos mais importantes engenheiros brasileiros do século XIX.



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Pont de St. Louis, Paris; unknown


O historiador Jean Desjours, referindo-se às imagens da exposição Photo Génie, afirma que nas fotografias de engenharia o progresso tecnológico não é simplesmente o que é visível, mas aquilo que "faz ver". Por isto mesmo, ele acredita - e eu estou plenamente de acordo - que essa produção fotográfica fez mais do que mostrar o mundo através dos símbolos materiais do progresso. Ela foi capaz também de traduzir e de tornar esse mundo tecnológico mais "aceitável" para nós. A fotografia, como já assinalei em trabalhos anteriores, inaugurou uma nova forma de representação do tempo e do espaço. E, no século XIX, as noções de tempo e espaço estavam sendo profundamente alteradas pela ciência e pela tecnologia. Daí sua presença tão visível na representação fotográfica do mundo oitocentista, particularmente nas fotografias de engenharia. Através dessas imagens, os homens e mulheres do século XIX foram se familiarizando com a estética de uma paisagem modelada por estradas, pontes, monumentos e outras construções do gênero. Uma estética que, com o passar do tempo, acabou se incorporando à nossa visão cotidiana da realidade e se transformando em "nosso meio ambiente 'natural' (...) tanto quanto as árvores, os rios e os campos".

Encarada como "espelho do mundo" no século XIX, a fotografia converteu-se rapidamente em imagem simbólica das conquistas que a ciência e a tecnologia eram capazes de alcançar, sendo talvez a mais importante delas a aceitação generalizada de sua objetividade e eficácia, tão bem representadas pela própria imagem fotográfica. Para muitos contemporâneos, o século XIX era um "século de conquistas", onde o progresso podia ser medido pelo crescente controle do homem sobre a natureza, graças aos novos recursos que a ciência e a tecnologia colocavam à sua disposição. O crescimento urbano, o trabalho fabril, o funcionamento das ferrovias e a comunicação telegráfica influíam na incorporação de novas medidas do tempo no cotidiano das pessoas. Mas, com a fotografia, a evolução cronológica do homem e os fatos históricos ganharam "objetividade". Contribuindo para reforçar na imaginação coletiva as concepções evolucionistas consagradas pelas teorias sociais do século XIX e a noção de tempo linear exacerbada pelos ritmos cada vez mais velozes da vida moderna, a fotografia favoreceu a construção de uma certa leitura do tempo e do espaço e, por extensão, da própria história, em sintonia com a lógica positivista das teorias do progresso então em voga. Desde a sua invenção, a fotografia mostrava-se capaz de produzir uma nova e abundante documentação visual dos vestígios deixados pelo passado e, ao mesmo tempo, o registro imediato, "realista" e "convincente", dos acontecimentos do presente, aos quais ela conferia um sentido memorável e, portanto, histórico. Os avanços tecnológicos da era moderna, simbolizados pela construção de ferrovias, palácios de ferro e vidro (como os pavilhões das exposições) e outros tantos monumentos urbanos, faziam parte desse conjunto de acontecimentos registrados e celebrizados pela câmara fotográfica.

Uma das fotografias de obras de engenharia mais representativas do processo de criação de memórias através dessa forma de documentação voltada para a atividade profissional dos engenheiros - processo que em si mesmo também traduz uma preocupação com a posteridade e com a construção de uma visão da história - é a imagem bastante conhecida de Andrew Joseph Russell (1830-1902) registrando o encontro da Union Pacific Railroad Company com a Central Pacific Railroad Company, em Promontory Point (Utah, EUA), a 10 de maio de 1869. Diante das locomotivas e dos trabalhadores das duas estradas que, unidas, iriam formar uma grande ferrovia ligando o Leste e o Oeste dos Estados Unidos, os engenheiros-chefes das duas obras encenam, com um aperto de mãos, um "acontecimento histórico" na construção da nação norte-americana.



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Construção do Dique Imperial; Klump, Revert Henrique


Embora não se possa superestimar a utilização da fotografia na produção do acontecimento na segunda metade do século passado , uma produção ainda limitada pelos meios de comunicação disponíveis se comparada aos dias atuais, não foram poucas as imagens desse período produzidas como parte de um ritual que tinha por objetivo criar a representação "exata" de acontecimentos memoráveis. A documentação sistemática da Guerra Civil norte-americana (1861-1865), da Guerra do Paraguai (1865-1870) ou da Guerra de Canudos (1897) foram exemplos característicos dessa intenção de memória e de história associada à fotografia. Mas as guerras não eram os únicos fatos notáveis do século XIX. As grandes obras públicas da época também tinham um sentido histórico e por isto mesmo já nasciam com um caráter monumental, sempre celebradas por inaugurações oficiais, cerimônias religiosas, notícias na imprensa, publicações ilustradas. Nesses rituais de consagração das obras de engenharia em acontecimentos memoráveis - e, por extensão, do documento fotográfico em monumento -, esperava-se que as imagens produzidas através das lentes de uma câmara (freqüentemente transpostas também para a gravura) representassem uma visão exata e fidedigna da própria história e de sua marcha contínua em direção ao progresso.

Analisando, portanto, esse tipo de documentação fotográfica e sua relação com a cultura histórica do século XIX, podemos levantar algumas questões sobre a representação do progresso no projeto de construção da nação pelo Estado imperial, bem como sobre a formação de uma imagem pública do imperador D. Pedro II identificada com os chamados melhoramentos do Império. Se, para estudar os sistemas ideológicos do passado, temos que nos preocupar com as "expressões verbais da boa consciência" , isto é, com os termos que denunciam a imagem que um grupo tem de si próprio e dos outros, em um dado momento, então uma das expressões mais reveladoras das convicções dominantes na sociedade monárquica e da cultura histórica do século XIX é justamente a palavra melhoramento. Utilizada com freqüência pela aristocracia brasileira e hoje raramente empregada, ela já não tem mais, entre nós, a mesma carga semântica daquela época. Como expressão verbal da convicção no progresso, os melhoramentos costumavam ser divididos em "materiais", "morais", "públicos", "urbanos". E esses melhoramentos foram, sem dúvida, um tema privilegiado da atividade de documentação fotográfica do país no processo de consolidação do Estado imperial durante o Segundo Reinado (1840-1889).

Os melhoramentos da nação envolviam projetos e atividades em setores estratégicos para o fortalecimento do Estado monárquico (mapeamento e exploração das riquezas naturais, construção de portos e estradas, comunicação telegráfica e marítima, abastecimento d'água e remodelação urbana, especialmente na Corte, etc). Nesse contexto, a atividade de documentação fotográfica das obras públicas e a veiculação dos resultados dessa atividade através da produção e circulação de álbuns de vistas e cartões estereoscópicos, da realização de exposições provinciais e nacionais e da publicação de obras ilustradas para a divulgação do país no exterior configuravam-se como instrumentos eficazes para a visibilidade dos melhoramentos do Império e, conseqüentemente, para a formação de uma imagem do Segundo Reinado associada ao progresso e à civilização.

O primeiro a retratar e a exibir, nos salões da Corte, fotografias de obras públicas do Império foi o alemão Revert Henrique Klumb, responsável também pela produção das primeiras vistas estereoscópicas do Rio de Janeiro, pouco tempo depois de ter chegado ao país, em meados da década de 1850. Uma dessas fotografias, apresentada por Klumb na Exposição de Belas Artes da Academia Imperial, em 1860, registrava a construção do dique Imperial, na ilha das Cobras (junto ao Arsenal de Marinha da Corte), e na ocasião o fotógrafo acabou recebendo uma menção honrosa por seu trabalho. Nas décadas seguintes,Marc Ferrez (1843-1923) destacou-se por sua atividade de documentação fotográfica do Império (com um contingente expressivo de fotografias de obras de engenharia), alcançando o sucesso profissional e o reconhecimento público mais expressivo de sua época. Ao longo de sua carreira, ele realizou inúmeras encomendas para instituições públicas e privadas, nacionais e estrangeiras (ministérios ou companhias ferroviárias, por exemplo), e recebeu prêmios em quase todas as exposições nacionais e internacionais em que seu trabalho esteve presente. A própria Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, cuja sede foi inaugurada em 1875 com uma exposição nacional e uma exposição das obras públicas do Império, encarregou-se de encomendar boa parte dessa documentação e de promover a divulgação dos melhoramentos do país. Algumas fotos do edifício, tiradas por Marc Ferrez, foram apresentadas e premiadas com medalha de ouro na Exposição de Belas Artes de 1879.



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Viaduto do Silvestre da Estrada de Ferro do Corcovado; Ferrez, Marc


Inserida no processo de modernização das atividades construtivas ocorrido no período, a atividade de documentação fotográfica das obras públicas do Império participava do processo de consolidação do Estado imperial e do projeto de construção da nação, dando visibilidade ao trabalho dos engenheiros a serviço do Estado, às realizações materiais do Segundo Reinado, à própria figura do imperador D. Pedro II. Era natural, portanto, que a maior parte da documentação fotográfica relacionada às obras públicas do Império dissesse respeito às ferrovias, porque elas eram não apenas os projetos de engenharia que melhor simbolizavam o progresso, como também aqueles que envolviam alguns dos interesses mais poderosos no interior da sociedade brasileira desse período. Entre tantas imagens de pontes, trilhos e estações ferroviárias produzidas nessa época, a fotografia da Estrada de Ferro do Corcovado, inaugurada em 1882 como a primeira ferrovia "turística" do país, é um dos trabalhos mais admiráveis deixados por Marc Ferrez. Incluída no famoso Album de vues du Brésil (Paris: Imprimerie A. Lahure, 1889), organizado pelo barão do Rio Branco por ocasião da Exposição Universal de Paris de 1889, essa fotografia (posteriormente multiplicada em milhares de postais) convidava a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro tendo como apelo a incorporação do progresso à exuberante natureza tropical.



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Viaduto do Silvestre da Estrada de Ferro do Corcovado; Ferrez, Marc


Uma outra fotografia de Marc Ferrez, até hoje inédita e que eu gostaria de mencionar aqui, encontra-se no álbum intitulado Obras de canalização provisória do rio São Pedro, datado de 1889 e pertencente ao engenheiro Francisco de Paula Bicalho (1847-1919), na época o responsável por tais obras. Essa imagem é bastante ilustrativa da atividade profissional do maior fotógrafo brasileiro do século XIX, de suas condições de trabalho, de sua competência técnica. Por outro lado, ela também é representativa do processo que interliga a construção das memórias de engenheiros com a conformação de uma determinada perspectiva para a história, particularmente para a história do Segundo Reinado e de suas realizações materiais. A imagem de Marc Ferrez parece costurar uma rede de relações: o álbum em questão foi encomendado ao fotógrafo e presenteado ao engenheiro-chefe da Inspetoria de Águas da Corte (Francisco Bicalho) por outros engenheiros que ali trabalhavam, como forma de homenageá-lo. Mas a mesma fotografia ainda pode ser encontrada em outros álbuns do gênero encomendados a Marc Ferrez, dois deles presenteados a D. Pedro II (nesse conjunto de vistas o imperador aparece inspecionando o reservatório d'água em construção no morro do Pedregulho, na cidade do Rio de Janeiro).



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Obras de canalização do Rio São Pedro; Ferrez, Marc


Na coleção de fotografias pertencente ao imperador (Coleção Teresa Cristina, hoje na Biblioteca Nacional), a trama que interliga essas e tantas outras fotografias de engenharia do século XIX traduz-se na relação existente entre as artes da fotografia, através da atividade de documentação das obras públicas da época, e as artes da memória, isto é, o processo onde se articulam a "missão" do fotógrafo, as recordações do engenheiro, a memória coletiva de seu grupo sócio-profissional e ainda o esforço de construção de uma "história pátria" - ou de uma memória nacional - identificada com o progresso e a civilização. O simbolismo da pedra fundamental e da lápide comemorativa, a pompa das cerimônias de bênção religiosa e das inaugurações oficiais, tanto quanto a presença da família imperial em eventos ligados a essas obras, faziam parte dos rituais que, no século XIX, revestiam com um caráter solene as obras públicas e os melhoramentos do Império. Nesse sentido, a produção de álbuns fotográficos com as várias etapas de uma obra e o registro da presença do imperador D. Pedro II em uma cerimônia de inauguração pertencem a um conjunto maior de representações destinado à consagração das realizações do Segundo Reinado.

A festa pela abertura da primeira linha de bondes do Rio de Janeiro, em 1859, por uma companhia de carris urbanos, foi bastante ilustrativa desse processo de consagração dos melhoramentos do Império e da própria figura do imperador. Como em outras obras, o ato de inauguração da estrada contou com a presença de D. Pedro II e de grande comitiva convidada a assistir à cerimônia de bênção da estação, dos trilhos e dos veículos, bem como a colocação de uma placa comemorativa. Antes do coquetel e dos discursos (sempre pomposos e intermináveis), uma banda de música tratou de acompanhar o desfile das autoridades nos carros ornamentados para a festa. O presidente da Companhia, Francisco José de Melo e Souza, fez do seu discurso uma longa saudação à abertura da estrada e ao papel desempenhado pelo imperador:

Senhor, o dia da inauguração de uma estrada é sempre uma data importante, porque simboliza o progresso da indústria e anuncia um novo impulso ao desenvolvimento moral e material do país. Quando, porém, um monarca ilustrado, como Vossa Majestade Imperial, honra com a sua augusta presença essa solenidade, ela se torna uma festa nacional para o povo e entra na ordem dos fatos políticos, pois revela as vistas profundas de um governo que sabe animar as artes e proteger o trabalho. (...) É, pois, com uma satisfação íntima que (...) vimos agradecer a Vossa Majestade (...) a honra que nos dignastes outorgar-nos, consagrando, com o vosso nome, este fato que deve prender-se à longa série de um glorioso reinado. (Apud Dunlop s/d: 13)

Nas três décadas seguintes, a presença de D. Pedro II nas inaugurações de obras públicas tornou-se freqüente. Presença que aparece registrada na obra de fotógrafos como Klumb, Ferrez e outros, a exemplo da imagem de 25 de junho de 1882, muito reproduzida pela historiografia, em que vemos o imperador, acompanhado pela imperatriz Teresa Cristina e por sua comitiva, no ato de inauguração do túnel da Mantiqueira da Estrada de Ferro Rio-Minas. Nessas ocasiões festivas, a presença do imperador costumava ser celebrada com a construção de arcos triunfais, igualmente documentados pelos fotógrafos. Como bem ensinava um manual de arquitetura civil de meados do século, os arcos triunfais eram monumentos destinados a "sustentar o orgulho nacional e o patriotismo dos cidadãos" (Bellegarde 1884). Este parecia ser o sentimento dominante na festa de inauguração da primeira estrada de rodagem macadamizada do Império - a União Indústria, ligando Petrópolis a Juiz de Fora -, quando um arco triunfal foi erguido diante da casa do comendador Mariano Procópio Ferreira Lage (responsável pela obra), para recepcionar D. Pedro II, a 23 de junho de 1861 (Klumb fotografou a homenagem). Ou ainda, na visita do imperador a Belém do Pará, por ocasião dos festejos da Independência do Brasil, a 7 de setembro de 1867.



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Visita do Imperador Pedro II; Ferrez, Marc


Na abertura de todas as exposições nacionais ou na realização das obras públicas mais importantes do país, particularmente as que se situavam na Corte e regiões próximas, o imperador estava sempre presente às cerimônias de colocação da pedra fundamental, batismo das instalações, inauguração de obras, lançamento de navios. Essa presença, ontem como hoje, contribuía para reforçar sua imagem pública como o grande responsável, em última instância, por todos esses melhoramentos. Por isto mesmo, na imagem de D. Pedro II como imperador do Brasil, construída em vida e permanentemente reelaborada depois de sua morte, os melhoramentos do país em seu reinado são uma referência quase obrigatória. A identificação do Segundo Reinado com um longo período de "paz e prosperidade" tornou-se, inclusive, um dos argumentos mais freqüentes dos defensores da monarquia diante das dificuldades vividas pelo país depois da implantação do regime republicano.

Mas havia sutilezas nesse processo, pois ao mesmo tempo que os melhoramentos da nação iam assumindo uma importância crescente para a imagem pública do "monarca ilustrado", "amante da instrução" e "protetor das artes e da ciência", D. Pedro II não se deixava seduzir pela idéia de serem construídas estátuas em sua homenagem ou qualquer outro monumento com a sua própria figura. A estátua de D. Pedro I, no antigo Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro), havia sido o primeiro monumento público erguido durante o Segundo Reinado - pelo sistema de subscrições e não com dinheiro público - e logo se transformou em tema recorrente dos principais fotógrafos que atuavam na cidade (Klumb, Ferrez, Stahl, etc). Há uma fotografia dessa estátua, de autoria desconhecida e em estado bastante precário, reproduzida pelo historiador Gilberto Ferrez, que nos dá uma idéia do clima festivo da cerimônia de inauguração do monumento, em março de 1862, quando muitas pessoas compareceram ao Largo do Rocio, todo recoberto com folhagens e decorado por um imenso arco triunfal erguido especialmente para a ocasião. Alguns anos depois, Marc Ferrez também produziu uma bela fotografia da estátua do patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), situada no Largo de São Francisco de Paula (RJ). Construída através de subscrições populares, como a anterior, a estátua de Bonifácio, erguida diante da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, havia sido inaugurada a 7 de setembro de 1872, nas comemorações pelo cinqüentenário da Independência do Brasil, evento identificado como a primeira grande festa cívica do Império. Mas, em 1874, de nada adiantaram os esforços dos entusiastas da idéia de uma estátua com a figura de D. Pedro II no cenário da Corte. Todo o dinheiro que conseguiram arrecar para que fosse erguido um monumento do gênero na cidade acabou sendo destinado à construção de uma escola, porque o imperador se recusou a aceitar a homenagem. Um gesto não deixava de ser significativo, considerando-se que a melhor compensação para a modéstia imperial eram os chamados "julgamentos da posteridade". Os melhoramentos do Império sob o reinado de D. Pedro II e sua identificação com a figura do monarca se encarregariam de formar esse julgamento.

Embora o "abominável" culto à personalidade fosse condenado por D. Pedro II (ao menos em tese) e por aqueles que viam no seu poder pessoal uma ameaça ao equilíbrio dos poderes e das instituições monárquicas, acreditava-se que o culto à "história pátria" era um sentimento necessário à construção e ao fortalecimento da nação, devendo ser estimulado. As obras públicas, assim como as imagens que as representavam, podiam contribuir para isso, na medida em que reforçavam uma percepção da história do país associada ao progresso e à civilização. Por essa razão, parece-me importante assinalar que, mesmo não tendo sido construídos monumentos com a figura do imperador enquanto ele esteve no poder, não se pode esquecer que até o final do Segundo Reinado D. Pedro II já era nome de estrada de ferro, reservatório d'água, colégio, hospital, praça, etc. Esse era um tipo de reverência que o imperador aceitava com satisfação, pois as obras e instituições que levavam o seu nome eram todas de "utilidade pública" e demonstravam os melhoramentos da nação durante o seu reinado. Este era um aspecto chave para que a homenagem fosse aceita por D. Pedro II sem maiores problemas. Afinal, essas obras e instituições representavam muito bem a idéia de um governo "ilustrado" e "moralizador". De modo que, se nós avançarmos um pouco no tempo antes de encerrarmos esta breve análise, observaremos que, logo depois de proclamada a República, em 1889, todas as instituições e logradouros públicos da cidade do Rio de Janeiro com o nome de D. Pedro II tiveram suas denominações rapidamente alteradas para "XV de Novembro", "República", "Central do Brasil", "Nacional", e assim por diante. Em outro contexto, era preciso justamente dissociar a figura do monarca deposto e o regime político recém-abolido daquelas obras e instituições que haviam simbolizado - e ainda simbolizavam - os melhoramentos da nação durante o Império. O que nos sugere, como assinalou o escritor Jorge Luis Borges, que "a memória e o esquecimento são igualmente inventivos".



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Estação Central; Ferrez, Marc


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    Bibliografia

  • Bellegarde, Pedro de Alcântara. 1848. Compendio de architectura civil e hydraulica. Rio de Janeiro: Typ. de M. A. da Silva Lima.
  • CENTRE NATIONAL DE LA PHOTOGRAPHIE. 1983. Le grand oeuvre; photographies des grands travaux / 1860-1900. Introduction par Jean Desjours. Photo Poche. v. 11. Paris.
  • Dunlop, Charles J. s/d. Apontamentos para a história dos bondes no Rio de Janeiro. v.1. Rio de Janeiro: Companhia de Carris Luz e Força do Rio de Janeiro (Light).
  • Ferrez, Gilberto. A fotografia no Brasil (1840-1900). Rio de Janeiro: Funarte e Pró-Memória.
  • Le Goff, Jacques. 1984. "Documento / Monumento". In: Enciclopédia Einaudi. v. 1, Porto: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, p. 103.
  • Nora, Pierre. 1979. "O retorno do fato". In: Le Goff, Jacques e Nora, Pierre (org.). História: novos problemas. 2 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, pp. 180 e segs
  • Rebouças, André. 1938. Diário e notas autobiográficas. Rio de Janeiro: José Olympio.
  • Turazzi, Maria Inez. 1986. "Fontes para a história do Rio de Janeiro: o uso social de um arquivo particular". Revista Rio de Janeiro. Niterói, v. 1, n. 3, p. 123-131
  • Turazzi, Maria Inez.1995. Poses e trejeitos; a fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839-1889). Rio de Janeiro: Funarte e Rocco.

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